Uma reflexão sobre a diáspora africana

quarta-feira 22 de dezembro de 2010

No Rio, o professor e pesquisador senegalês Alain Pascal Kaly fala sobre a diáspora africana e o Fórum Social Mundial em seu país de origem

Alain Pascal Kaly, é senegalês, professor de História e Culturas Africanas no Departamento de História da UFRRJ e pós-doutorando no Departamento de História da Unicamp. Atualmente, além das aulas, faz pesquisas sobre as sociedades de castas no Senegal e na África Ocidental. Tem publicações sobre os migrantes africanos no Brasil, o Islã na África Ocidental e a circulação de ideias no mundo negro-africano.

Clícea – Prof. Alain, conte um pouco da sua trajetória profissional e acadêmica.

Alain – A minha vida profissional e acadêmica está ligada a minha vinda ao Brasil. Cheguei em 1990 com mais dez colegas senegaleses. Nós não nos conhecíamos, viemos a nos conhecer aqui. Fizemos português juntos na Universidade Federal de Santa Catarina, e depois, no final de dezembro, cada um foi para seu lugar. Eu fui para São Paulo onde fiquei de dezembro de 1990 até março de 1991. Na realidade eu vim para fazer informática, porém, no segundo grau, ainda no Senegal, eu tive que mudar e fazer humanas. Por isso meu primo, estudante da USP, me aconselhou a fazer Ciências Sociais.

Na cidade de Salvador eu fiz graduação e mestrado em Ciências Sociais, pesquisando sobre meninos e meninas em situação de rua. Mas na realidade, este tema foi um pretexto para mergulhar no grau de integração do negro na sociedade brasileira.

O doutorado, eu fiz no Rio de Janeiro, que foi um estudo comparativo entre meninos/as em situação de rua no Rio de Janeiro e em Dakar. Depois do doutorado fui convidado para fazer pós doutorado na Unicamp, no Departamento de História, com o professor Fernando Teixeira da Silva. Meu projeto de pesquisa é discutir a questão do preconceito e da estigmatização de determinados grupos sócio-profissionais, que são os griot e os ferreiros no Senegal e na África Ocidental.

Eu nunca consegui a bolsa para desenvolver essa pesquisa, eu comecei a fazer concursos em 2006, 2007, 2008, 2009. Só passei em 2009 para a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e em março de 2010 assumi como professor de História e Cultura Africanas.

Além disso, publiquei artigos sobre a questão do Islã na África Ocidental, migrações em um livro coletivo chamado: Migrações internacionais.

Desafios para o século XXI com o seguinte titulo: à procura de oportunidades ou desembarque por engano, com o propósito de discutir e entender a ausência de negros brasileiros nos cursos de prestígio nas universidades públicas brasileiras em mestrado e doutorado.

Atuei como consultor para as Nações Unidas (FAO) sobre Segurança Alimentar no Haiti em 2007. O trabalho resultou na publicação Haiti y Nicarágua. Evaluaciones sobre El derecho a La Alimentación.

E além desse trabalho eu milito na organização não governamental: Vida Brasil, onde trabalhei de 1997 a 2000. Em 2000 eu assumi a presidência da desta organização, cuja sede fica em Salvador, e a filial em Fortaleza. A Vida Brasil de Salvador está mais especializada em portadores de deficiência, e a de Fortaleza sobre segurança alimentar. Esse trabalho com esta ONG me levou, quando eu cheguei ao Rio, a me candidatar no projeto Uerê, de Ivone Bezerra de Melo, situado no Complexo da Maré, onde eu trabalhei como voluntário duas vezes por semana durante 5 anos. Com isso fizemos pesquisa e publicamos alguns artigos.

Clícea – Você é um cidadão senegalês, o que acha da política no Senegal hoje?

Alain – A situação política no Senegal é problemática. Acredito que, desde a sua independência em 1960, o país enfrenta sua pior situação. Não temos presidente de fato. O Senegal tem sido dirigido por uma família, a do presidente Abdoulaye Wade. A mulher dele enche as bolsas roubando o dinheiro do governo. Do outro lado a filha, que a gente não sabe exatamente o que ela faz e o filho que é hoje o supra ministro do Senegal. Qualquer ministério no Senegal tem que passar pelo ministério dirigido pelo filho de Wade, Karim Wade, pretenso sucessor de seu pai.

O pouco que o Senegal tinha de bom, que fazia parte do orgulho senegalês que era a educação de primeiro e segundo grau, a família Wade conseguiu acabar. A questão de saúde piorou. O governo muda a cada três meses e essa instabilidade não permite a gente trabalhar.

Outro ponto que é problemático são as nossas autoridades... Nós tínhamos uma das melhores diplomacias no tempo de Leopold Sedar Senghor. No tempo de Abdoulaye acabou. Ele põe pessoas despreparadas para serem diplomatas. Isso fez com que o Senegal perdesse credibilidade no plano internacional e no plano interno.

Hoje você liga no Senegal e as pessoas informam que não têm quase energia. É rotativo. As pessoas ficam horas e horas para ter energia. Um país que chega nesse estado nunca vai ser desenvolvido, por que o desenvolvimento está ligado à questão da energia. Então estamos nessa situação. E a luta do senegalês hoje é tirar o Abdoulaye da presidência. Mas ele conseguiu manter-se no poder. Ele sabe que senegalês é vaidoso, gosta de dinheiro, então ele deu boa vida aos ministros, deputados. O que ele fez? Todos aqueles que poderiam vir a ser os seus concorrentes na disputa eleitoral, ele chamou para serem ministros. E essas pessoas sabiam: “eu vou ser ministro para três meses”. Mas mesmo assim eles aceitaram. Então essas pessoas que poderiam vir a ser potenciais presidentes do Senegal se queimaram.

Clícea – Fale um pouco da importância do Fórum Social Mundial no Senegal.

Alain – É uma preocupação para mim, enquanto senegalês, por que pode ser problemático no sentido de que, como eu falei, a gente tem um governo corrupto. Eles vão tentar o máximo possível tirar proveito desse acontecimento e não sei como vai ser. Como um país que tem problema de energia vai conseguir um evento de tamanha importância? Eu não sei. Isso aconteceu com o FESMAN, que é o Festival Mundial das Artes Negras, que ele está tentando organizar, mas nunca vai dar certo. A ideia principal do evento no tempo de Senghor, era realizar um encontro de intelectuais e de artistas negros africanos e da diáspora. Era um diálogo, por que ele entendia que tínhamos algumas histórias em comum que é a questão colonial e que a grande maioria dos negros conhecia os mesmos problemas. Quer dizer, a integração periférica do negro nos seus respectivos países. Então a luta dele era promover um encontro para discutir como encontrar mecanismos em comum para enfrentar esse contexto. Hoje a idéia do FESMAN foge dessa preocupação. A preocupação do atual presidente é como organizar determinados eventos que possam lhe dar os seus 15 segundos de fama.

Clícea – Fala um pouco da diáspora africana

Alain – Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX tivemos uma circulação muito grande de ideias de intelectuais africanos, europeus, caribenhos e norte-americanos. Eles tinham um elemento em comum que era a colonização de um lado e o resgate da dignidade do ser humano do outro. Isso foi um combate em conjunto que se iniciou e vai se consolidar muito mais a partir da Revolução Haitiana (1791) e com os intelectuais haitianos, como por exemplo o escritor Antenor Fírmin (1850–1911), com suas publicações, sobretudo o clássico De l’égalité des races humaines, que seria A igualdade das raças humanas, de 1885, mesmo período da segunda edição do livro de Joseh Arthur de Gobieau (1816-1882), Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas. Segundo Antenor Fírmin, o livro não era uma resposta a Gobineau, mas a todos aqueles europeus, ocidentais, para ser mais exato, que acreditavam nas diferenças de várias raças, sendo uma superior a outra. Isso seria uma resposta dele.

Então ele vai ser um dos maiores articuladores do primeiro encontro de pensadores negros africanos e da diáspora em 1900, em Londres. Vale destacar que nesse encontro Dubois, que vai ser uma das maiores autoridades do Pan-africanismo fazia parte da delegação norte-americana, mas sem grande importância. Foi no final desse encontro que se cunhou a profética frase que vai caracterizar o século XX: as barreiras de raça, que você encontra no livro de Dubois A alma da gente negra. Além de Dubois encontramos outros intelectuais do mundo francófano e anglofano que vão se posicionar.

O encontro de Londres visava interferir nas autoridades desta cidade, sobretudo junto à rainha da Inglaterra pra que ela pudesse usar do seu peso para impedir que os brancos na África do Sul continuassem roubando as terras e os gados dos nativos sul-africanos. Então pela primeira vez, depois de séculos de escravidão, africanos e africanos da diáspora se encontram em 1900 para discutir algo que era relacionado ao contexto africano.

A partir daí ocorreram vários encontros do movimento pan-africanista. Depois, a partir da década de 30, o Movimento da Negritude vai envolver intelectuais negros norte-americanos nessa empreitada do resgate da dignidade do negro.

O Brasil vai ter uma participação na questão da diáspora muito tardiamente. A pergunta que se faz é se isso se devia a língua ou por outros contextos. Nos documentos que eu encontrei de 1956 sobre o encontro dos negro-africanos em Roma, para escrever meu artigo publicado em 2007, o Brasil foi representado por Jorge Amado. Estaria sua participação associada ao fato de ele era comunista ou ao fato de ser alguém que escreveu muito sobre o Brasil? Mas vendo a posição que o negro ocupou na literatura de Jorge Amado, é contraditório que ele representasse mesmo como convidado.

Esses encontros voltaram a ter mais peso a partir do Festival Mundial das Artes Negras. O primeiro aconteceu em Dakar, em seguida em Lagos, na Nigéria. De novo temos esse reencontro de africanos em prol da situação do negro no mundo colonial e pós-colonial envolvendo também outros grupos étnicos.

Outra característica destes intelectuais era que entre o século XIX e XX todos eles vão sustentar em seus escritos a existência de uma só raça, a raça humana, o que no contexto ocidental nunca foi aceito. O debate volta à tona depois da segunda guerra mundial com os campos de concentração, que matou milhões e milhões de judeus. É bom destacar que quando se fala em campo de concentração se fala de judeus. Negros e ciganos também foram enviados para os campos de concentração, que por sinal não começaram na Europa, mas sim na Namíbia em 1910. Como falou Aimé Cesaire, enquanto eles matavam em outras partes do mundo não europeu, o mundo ocidental nunca levantou o dedo. Precisou que matassem brancos europeus em plena Europa ocidental para que as pessoas se levantassem contra Hitler.

Então, finalizando a reflexão de Aimé Cesaire, ele diria que é uma contradição, uma ambigüidade, por que foi a mesma Europa que cometeu várias barbaridades. Segundo ele, esses europeus que apontaram Hitler e o nazismo têm dentro de si, cada um, um Hitler também por que aceitaram as mesmas barbaridades que aconteceram fora do contexto europeu. Temos também a obra de Jean Price Mars: Assim fala o tio, uma tentativa de mostrar que o vodou é uma religião tal como o cristianismo, tal como o islã e assim por diante.

No contexto de alguns intelectuais africanos teremos também a destacada contribuição do grupo da Negritude composto por Leon Damas, Aimé Cesaire, Leopold Sedar Senghor, Aliou Diouf e Birago Diop. Essa é a primeira geração. Na segunda temos a contribuição de Cheik Anta Diop, que com sua obra tentou provar que a civilização do Egito Antigo é uma civilização eminentemente negra. Este autor ressaltou que o Egito é tão importante para os negros da África e da diáspora como Roma é para o mundo ocidental.

Outros trabalhos estão sendo retomados hoje, como a leitura do Frantz Fanon, do Richard Wright, que ninguém pode negar, James Baldwin e todas aqueles que vão mergulhar nesse mundo para o resgate da dignidade do negro africano e da diáspora.

O encontro do Festival Mundial das Artes Negras se realizou a partir da preocupação de mostrar ao resto do mundo que a África e o africano contribuíram para a civilização mundial. E Senghor vai cunhar o conceito de civilização do universal. Qual é a diferença? A civilização do universal seria a contribuição cultural de todas as civilizações e todas as sociedades diferentemente da civilização universal que é uma imposição de um só civilização.

Essa concepção de Senghor mostra do outro lado os limites da Declaração (dos Direitos Humanos) desde a Revolução Francesa com seus ideias da Igualdade, Liberdade e Fraternidade, que foram concepções ideais que pararam no mundo ocidental. No mesmo momento da Revolução Francesa, a mesma França e outras potências europeias mantinham regimes de escravidão em outras partes do mundo.

Como explicar que os ideais de humanidade estas potências não ultrapassaram suas fronteiras?

E em 1948, tais potências vão apoiar um das mais perversas ações colonialista que foi o aparthaid, na África do Sul. Então há uma contradição muito grande.

No caso do Brasil, no discurso que Senghor fez em 1964, disse que se o Brasil não conseguisse colocar no mesmo patamar a contribuição indígena, africana e ocidental, nunca poderia se vangloriar de chegar à civilização do universal.

A Revolução Haitiana levou a diante os ideários da Revolução. Francesa, porque foi a única revolução entre o século XVIII e XIX, que após a revolução acabou drasticamente com a escravidão. Os Estados Unidos não terminaram com a escravidão, nem a França. Foi a Revolução Haitiana que acabou aquele regime.

São os intelectuais africanos e diaspóricos, sobretudo das colônias francesas e os deputados oriundos destas que vão questionar o chamado trabalho obrigatório, usando as brechas deixadas pela Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade.

Como falar de fraternidade se não há igualdade e liberdade? Eles usaram este questionamento para denunciar no parlamento francês que o que estava acontecendo na África sob o nome de trabalho obrigatório era na verdade uma forma de escravidão no século XX. Isso fez com que em pouco tempo se acabasse com o trabalho obrigatório nas colônias francesas.

A contribuição dos africanos foi de fundamental importância, entendendo Africanos e da diáspora, para levar a diante a redemocratização dos ideários da Revolução Francesa e Norte - americana e assim por diante.

Clícea – Como será sua participação no Fórum Social Mundial?

Alain – Bom, pela primeira vez participarei do Fórum Social Mundial. As outras vezes eu deveria ter participado, pois sou presidente de uma ONG chamada Vida Brasil, que tem um papel dentro do Conselho nacional de segurança alimentar (CONSEA), mas nunca tive tempo. Não participarei diretamente do Fórum, mas do Fórum Mundial de Teologia da Libertação. Ambos aconteceram no mesmo período em Dakar . Fui convidado para falar nesse comitê das especificidades do Senegal em relação ao diálogo inter-religioso que sempre prevaleceu no contexto senegalês. O convite foi feito em janeiro do ano passado em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul após uma apresentação. Aceitei pois poderia articular a participação de pessoas de outras partes das Américas lidando com religiões afro.

Por exemplo, as pessoas que trabalham com a religião do candomblé no Brasil, o vodou no Haiti, e outras religiões afro nas Américas. Indiquei, sobretudo no caso do vodou, Jean Fils Aimé o teólogo cujos trabalhos eu havia lido quando estive no Haiti em 2007. Eles conseguiram entrar em contato e ele aceitou.

Para mim é importante participar desse encontro. Vou colaborar para que haja articulações, pois encontrei um espaço onde a questão racial é menos discutida.

Pela primeira vez o debate inter-religioso dentro da Teologia da Libertação, abrigará a questão do Islã, que não se discutia. Terá no contexto senegalês, intelectuais que discutem a questão do Islã na África, e isso vai ser uma novidade para a Teologia da Libertação nas Américas.

Fonte: Ciranda.net

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