A Banalidade do Mal: Racismo Institucional e Execução Sumária de Adolescentes Negros no Brasil

O Mapa da Violência é um estudo que se propõe a conhecer e dimensionar a violência no Brasil, oferecendo dados que possibilitem a orientação de políticas publicas destinadas ao seu enfrentamento.


Carlos Rodrigues Junior, 15 anos, Denis Henrique Francisco dos Santos, 13 anos e Djair Santana de Jesus, 16 anos, não se conheciam. As circunstâncias de suas mortes, no entanto, uniram estes adolescentes pelos laços de um parentesco que remonta à origem do Brasil, país que, em décadas nem tão remotas assim, orgulhava-se em se autodenominar “o país do futuro”. Os adolescentes, respectivamente residentes em Bauru (SP), Recife (PE) e Salvador (BA) foram assassinados pela Policia Militar de seus Estados, nos meses de dezembro de 2007 e janeiro de 2008. Tinham em comum, além dos sonhos característicos desta faixa etária, o fato de serem negros e pobres, de estarem desarmados e de não oferecerem nenhum risco à policia no momento em que foram abordados.

Carlos Rodrigues Junior estava em sua residência, na madrugada do dia 15 de dezembro de 2007, quando seis policiais militares (o tenente Roger Marcel Vitiver Soares de Souza, 31 anos, o cabo Gerson Gonzaga da Silva, 42 anos, e mais os policiais Emerson Ferreira, 35 anos, Ricardo Ottaviani, 34 anos, Maurício Augusto Delasta, 33 anos, e Juliano Arcangelo Bonini, 34 anos ) entraram em seu quarto e procederam a uma sessão de tortura que, ao fim de 30 choques elétricos, levaram o adolescente à morte. Denis Francisco dos Santos foi espancado por alunos da Policia Militar (Baltazar Arantes da Silva, que confessou ter dado uma gravata no adolescente, e mais Ganduso Pereira Diniz, Frederico Renan de Albuquerque Lima e Eduardo de Souza Xavier, suspeitos de omitir socorro à vítima), e morreu por asfixia, em conseqüência dos golpes recebidos, quando participava de um prévia carnavalesca no bairro do Cordeiro, em Recife, acompanhado de seus familiares, no dia 13 de janeiro de 2008. Djair Santana de Jesus foi baleado pelas costas, arrastado e novamente baleado na cabeça em seu bairro, no Pelaporco, em Salvador, em uma ação da Policia Militar, em 15 de janeiro de 2008. Nos três casos, a veemência dos protestos das familiares das vitimas (todas mulheres) que presenciaram os assassinatos – denunciando in locco e depois, corajosamente, nos meios de comunicação – são contestadas pela fraca argumentação policial de “fatalidade”, nos casos de Carlos e Denis, e de”reação à prisão”, no caso de Djair – apesar do tiro nas costas. Para as mulheres que denunciam os crimes, resta a incômoda situação de testemunha ameaçada, ou ainda de vitima da violência e achincalhe policial, como no caso de uma das tias de Djair, baleada nas nádegas.

A morte dos três adolescentes confirma tristemente as estatísticas do Mapa da Violência 2006, que situa o Brasil em 3° lugar no assassinato de jovens, num ranking de 84 paises. Dentre os jovens assassinados, jovens negros têm um índice de vitimação 85,3% superior aos jovens brancos. Além disso, o estudo aponta que o crescimento do numero de homicídios nas ultimas décadas, no Brasil, explica-se exclusivamente pelo aumento de homicídios contra a juventude: enquanto as taxas de homicídios entre os jovens aumentaram de 30,0 para 51,7 (por 100.000 jovens) no período de 1980 a 2004, neste mesmo período as taxas de homicídio para o restante da população diminuíram de 21,3 para 20,8 (por 100.000 habitantes). Outro dado importante é que a faixa etária em que ocorre um significativo aumento no numero de homicídios é a de 14 a 16 anos.

O Mapa da Violência é um estudo que se propõe a conhecer e dimensionar a violência no Brasil, oferecendo dados que possibilitem a orientação de políticas publicas destinadas ao seu enfrentamento. Neste sentido, as informações sobre a importância do fator racial na vitimação de jovens, aliado à constatação da magnitude do impacto do homicídio de jovens no aumento de homicídios da população como um todo, e finalmente, da tendência de diminuição da faixa etária destes homicídios não deixam duvidas quanto ao caráter genocida em relação à população negra que a violência vem assumindo ao longo das ultimas décadas no Brasil. Esta reflexão é de importância capital para os estados onde ocorreram os homicídios dos três adolescentes. Em lugares onde a policia distorce suas funções para cometer um crime bárbaro – assassinar um adolescente indefeso, através de choque elétrico, armas de fogo ou com as mãos nuas – é preciso reconhecer que há uma inversão da ordem que ameaça a sustentabilidade moral do poder. Torna-se, então, imperioso responder a questões tais como: o que leva agentes do Estado a executar de forma tão natural meninos negros? O que os motiva? Porque se sentem autorizados a cometer estes crimes?

Segundo o Mapa da Violência, em 2004 Pernambuco ocupava o 1° lugar entre os estados brasileiros com maior taxa de homicídios da população total, e o 2° lugar entre as maiores taxas de homicídios da população jovem, superando de longe São Paulo (10° lugar na taxa de homicídios da população total e 9° na taxa de homicídios de jovens) e Bahia (22° lugar na taxa de homicídios para a população total e jovens). A clareza dos dados estatísticos, no entanto, não tem sido suficientes para orientar a ação governamental. O Plano de Segurança Publica do estado – batizado de Pacto pela Vida – ignora completamente estes dados em seu diagnostico, impossibilitando a adoção de medidas de enfrentamento à violência racial, sobretudo quando esta violência encontra-se enraizada na ação da própria policia.

O assassinato do garoto Denis Henrique é praticamente uma reedição de outro caso ocorrido em 2006, quando um grupo de adolescentes negros foi abordado pela Policia Militar no centro do Recife, durante o carnaval. Após serem espancados, os jovens foram obrigados a entrar no rio Capibaribe; em conseqüência dos ferimentos, um deles morreu afogado. Durante o processo de julgamento dos policiais responsáveis pela ação, outro jovem do grupo morreu em circunstâncias não explicadas, às vésperas de prestar depoimento. A não punição dos culpados até o presente momento revela a outra face do sistema de segurança publica: a omissão da justiça em apurar casos nos quais vitimas fatais são pessoas negras, resultando na ineficácia da prestação jurisdicional em razão do pertencimento racial dos cidadãos. Assim, percebe-se que tanto a persistência da violência racial na policia quanto o desinteresse explicito em combater o racismo entranhado na estrutura mesma do estado encontram suas raízes no racismo institucional, definido como o “fracasso coletivo de uma organização em prover um serviço profissional adequado às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica. Ele pode ser visto ou detectado em processos, atitudes ou comportamentos que denotam discriminação resultante de preconceito inconsciente, ignorância, falta de atenção ou estereótipos racistas que colocam minorias étnicas em desvantagem”.

A exclusão histórica do sujeito negro do acesso a bens e direitos, a desconsideração de sua personalidade jurídica nas instituições republicanas no Brasil e a adoção de teorias oriundas do racismo cientifico no século XIX como base do senso comum teórico no aparelho de segurança publica, alimentados na atualidade pela volta da idéia da “criminalidade nata da infância negra” – defendida no pos-abolição por Nina Rodrigues e recuperada pelas campanhas de redução da maioridade penal – consolidaram a distorção da “presunção de culpabilidade” em relação à pessoa negra, ou seja: diante do aparelho de repressão estatal, pessoas negras serão priorizadas em abordagens policiais, em atos de tortura e ações que resultam em morte, pois na percepção dos agentes do Estado, o perfil do suspeito é a pessoa de sexo masculino, jovem e negro. A equação: democracia racial X estereótipos racistas X violência policial tem significado, para a população negra, um pesado saldo de execuções sumarias com efeito genocida, elementos presentes no assassinato dos três adolescentes.

Na verdade, a compreensão do caráter estrutural do racismo institucional permite o estabelecimento da responsabilização da própria autoridade publica omissa na adoção de políticas eficientes de enfrentamento à violência racial. Não basta apenas punir os responsáveis diretos pelos crimes – embora, sem o cumprimento desta etapa fundamental, qualquer perspectiva de prevenção de outros crimes seja impossível.

Ao relatar e analisar o julgamento de Otto Adolf Eichmann, funcionário do governo nazista responsável pela logística do transporte de prisioneiros para campos de concentração, Hannah Arendt se deteve sobre a questão da responsabilidade dos vários níveis de execução de um crime de Estado, concluindo que o fato de estar mais “próximo ou distante do efetivo assassinato da vitima nada significa no que tange à medida de sua responsabilidade. Ao contrario, no geral o grau de responsabilidade aumenta quanto mais longe nos colocamos do homem que maneja o instrumento fatal com suas próprias mãos”. Esta compreensão nos leva ao reconhecimento de que os funcionários que executam tais crimes acreditando desempenhar suas funções não podem ser qualificados de “monstros”, nem “pervertidos, nem sádicos”; ao contrario, são pessoas “terrível e assustadoramente normais”, pois sua ação se encaixa na lógica de um sistema; é, portanto, uma ação esperada, e geralmente, encorajada institucionalmente. O que assusta nesta situação não é a possível “anormalidade” da conduta de quem comete estes crimes, mas ao contrario, a sua absoluta normalidade, “mais apavorante do que todas as atrocidades juntas”, pois implica na existência de um criminoso que “comete seus crimes em circunstâncias que tornam praticamente impossível para ele saber ou sentir que esta agindo de modo errado”, mesmo porque sua ação nada mais é que uma conseqüência lógica do sistema no qual esta inserido. Ela cumpre uma trajetória que tem inicio na própria formação policial, carregada de estereótipos em relação à população negra, e que encontra eco na sociedade, onde os estereótipos criminalizantes e desumanizadores dirigidos a negros e negras são reproduzidos e alimentados nos meios de comunicação, na educação formal e nas relações sociais. Ao priorizar a pessoa negra em suas abordagens, os policiais militares não inventam uma regra, mas seguem um roteiro pré-estabelecido, agem de acordo com o que aprenderam. Funcionando como um reflexo condicionado, a conduta racista na abordagem policial não exige reflexão por parte dos policiais que a praticam. E é exatamente na consistência superficial desta atitude que reside o problema, porque o mal que a anima se justifica pela idéia do dever cumprido, de um certo heroísmo mesmo. É, portanto, extremamente banal, e exatamente por isso pode se alastrar facilmente, indefinidamente.

Por outro lado, é exatamente a normalidade desta conduta que impede que ela seja combatida e punida – afinal, o extermínio (no nosso caso, o da população negra) é o resultado esperado, e mais que isso – o resultado programado em um Estado que se constituiu a partir do pressuposto da exclusão do contingente negro de sua população. Daí porque a punição dos agentes estatais responsáveis pelo extermínio físico deste contingente é a exceção. Mudar esta lógica é possível, mas exige como pressuposto o restabelecimento da moralidade no poder. Não de uma moralidade abstrata, mas aquela nascida do que Hannah Arendt conceitua como amor mundi – ou seja, a atitude de admiração pelas obras das gerações humanas passadas (considerando a humanidade em toda a sua diversidade) e desejo que tais obras sejam preservadas para as gerações futuras. Esta moralidade exige que o Estado abandone o propósito político inconfessado de exterminar contingentes inteiros de sua população, e assuma o compromisso de preservar para o futuro também as crianças, adolescentes e jovens negros, como parte integrante e constituinte da própria nação brasileira. Extinta esta parte fundante, é a própria nação que corre perigo de sobrevivência no futuro.

A mudança desta perspectiva esta ao alcance do poder publico atualmente em exercício. Políticas publicas de combate ao racismo devem levar em conta o enfrentamento incansável ao racismo institucional, a mudança consciente de padrões de comportamento, de regras internas e de relacionamento com o publico, enfim, da mudança de paradigmas que permitam considerar a pessoa negra, em qualquer situação que se apresente, como detentora dos mesmos direitos e merecedora do mesmo tratamento dispensado às pessoas brancas. No cerne destas políticas deve estar a promoção de uma educação em todos os níveis que privilegie a capacidade reflexiva. Pois, como reflete ainda Hannah Arendt, se “a maldade não é condição necessária para fazer o mal”, a capacidade reflexiva, a busca empreendida pelo pensamento ativo é, sem duvida, um antídoto poderoso contra a banalização do mal.

O Movimento Negro em Pernambuco, chamado a contribuir na elaboração da Política de Segurança Publica, elegeu entre outras medidas especificas, a adoção do Programa de Combate ao Racismo Institucional no âmbito do governo estadual e articulação de ações semelhantes com os governos municipais. Acreditamos que esta medida possibilitara ao Estado responsabilizar-se concretamente pela erradicação da violência racial, apontando para um novo paradigma do respeito aos direitos da população negra.

Referências Bibliograficas

ARENDT, Hannah, Eichman em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal – São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p.268, 299-300.

BARROS, Geova da Silva, Racismo Institucional: a cor da pele como principal fator de suspeição, dissertação de mestrado em Ciências Políticas – UFPE, fevereiro 2006

BENTO, Maria Aparecida Silva; BEGHIN, Nathalie, Juventude Negra e Exclusão Radical, IPEA – Políticas Sociais, acompanhamento e analises, 11/ago/2005, p.194-197

CORREIA, Adriano, O pensamento pode evitar o mal? O pensamento experimentado como uma atividade reflexiva pode ser um obstáculo ao mal, Revista Educação Especial – Biblioteca do Professor n° 4 – Hannah Arendt pensa a Educação, Ed. Segmento, 2007, p. 46-55.

LIMA, Maria Lucia C. e XIMENES, Ricardo, Violência e morte: diferenciais da mortalidade por causas externas no espaço urbano do Recife, 1991, Cadernos de Saúde Publica, Rio de Janeiro, 14(4):829-840, out-dez.1998.

SALES JUNIOR, Ronaldo Laurentino, Raça e Justiça: O mito da democracia racial e o racismo institucional no fluxo de Justiça, tese de doutorado em Sociologia – UFPE, fevereiro de 2006.

WAISELFISZ, Julio Jacobo, Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros, Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura – OEI, fevereiro de 2007.


[1] Mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Paris, França e advogada do Observatório Negro (PE).

Fonte: Artigo publicado no Jornal Irohin: comunicação a serviço dos Afro-brasileiros, Brasília, ano XII, nº22, p. 4, em março de 2008.

Outras Publicações

Dependente da natureza, ao longo da evolução civilizatória, o homem foi construindo relações de intervenção positiva e negativa com a tríade vegetal, animal e mineral. As crises ecológicas geradas pelo uso indiscriminado e irracional dos recursos naturais ameaçam o biossistema numa escala local, regional e global. Diante de tamanho desequilíbrio ambiental engendrado pela expansão do capital, na Amazônia urge a necessidade de trabalhar alternativas para garantir o futuro das populações que hoje ali sobrevivem. Espera-se que tais populações consigam de fato viver com qualidade de vida e garantir o respeito ao ecossistema e o desenvolvimento local a partir da sustentabilidade.

É dessa forma, consciente de suas responsabilidades quanto à proteção e promoção socioambiental, que a Associação dos Remanescentes de Quilombos de Porto Alegre (ARQUIPA), localizada no município de Cametá (PA), distante a 150 quilômetros da capital Belém, encaminhou em novembro de 2012 – período de lançamento da 2ª Chamada Pública para apoio a projetos socioambientais quilombolas – um projeto à FASE/Fundo Dema, em sua parceria com o BNDES/Fundo Amazônia, visando promover o desenvolvimento da agricultura familiar fundamentada em princípios e conceitos de agroecologia a partir da criação de galinha caipirão.

Situada em um ramal a altura do quilômetro 40, da BR 422, no Nordeste do Pará, com uma área de 2.597 hectares, a comunidade reúne 90 famílias remanescentes de quilombo. Ainda em fase de reelaboração, o projeto Viva Alegre Caipirão vai beneficiar 360 pessoas e fortalecer a cidadania quilombola por meio da valorização da produção familiar e segurança alimentar. Com isso, conquista-se a redução da pressão aos recursos naturais da região e se combate o uso predatório destes recursos.

Justiça ambiental

Embalados por uma sensibilidade coletiva, os quilombolas de Porto Alegre têm a ampla percepção das assimetrias sociais, econômicas e ambientais decorrentes da relação entre homem e a natureza, tanto que não é incomum ouvir nas falas dos moradores as transformações sentidas no clima, por exemplo.

“Antigamente a gente tava acostumado a ver muita mata, áreas densas de matas verdes e os rios, no caso os igarapés aqui próximos tinham mais peixes, em relação ao clima mudou muito e acho que é devido aos desmatamentos próximos aos igarapés. Aqui passa um belíssimo igarapé, mas pessoas que vêm de fora, por exemplo, essas serrarias próximas à comunidade começam a fazer o desmatamento e não tem aquela preocupação de fazer um reflorestamento, então tudo isso vai danificando o tempo, aí causa mais calor. Eu me lembro que a noite fazia muito frio, ainda faz um pouco, mas não tanto quanto antes”, reflete Maria Benedita Borges, professora do ensino básico, remanescente de quilombola e moradora da comunidade.

A noção de justiça ambiental é coerentemente ajustada ao pensamento de que apesar das dificuldades enfrentadas com os impactos ambientais, o desnivelamento econômico e a ausência do Estado, ainda vale a pena lutar pela morada na floresta. “Por uma parte é muito bom morar na floresta porque a pessoa pode plantar, pode criar e tirar disso o seu próprio alimento, por outra não porque tem um tempo que a gente procura expandir a nossa produção. Às vezes a gente planta arroz, milho, aí quando chega em outra localidade, no caso Cametá, aí eles querem comprar a preço muito baixo, aí não compensa levar, pagar transporte pra chegar até lá”, complementa Maria.

As construções ideológicas, permeadas pelo sentimento paralelo entre o avanço da melhoria da qualidade de vida e a conservação da identidade cultural, são sempre associadas a mecanismos coletivos, participativos e compartilhados. Portanto, para os quilombolas de Porto Alegre, construir coletivamente uma alternativa de desenvolvimento sustentável enquanto estratégia de ação significa, sobretudo, ter noção da importância de se produzir uma atividade econômica respeitando a finitude dos recursos naturais.

Dessa forma, manter-se preocupado com a preservação ambiental é assegurar às próximas gerações remanescentes, diante de interesses cada vez mais excludentes, um futuro onde possam disseminar e orgulhar-se de suas histórias, não de forma lamentável, mas maravilhados pelas conquistas obtidas.

Transformações socioeconômicas

Reconhecida em 2009 pelo Instituto de Terras do Pará (ITERPA) como área de domínio coletivo, com ocupação e uso por famílias remanescentes de quilombos, a comunidade de Porto Alegre sempre atuou em regime de mutirão, e é dessa forma que há anos tem conquistado benfeitorias ao território e à sua gente. Durante os anos de existência, a Associação dos Remanescentes providenciou abertura de ramal para a chegada de energia à comunidade, construção de ponte, além de organizar o 1º Festival de Samba de Cacete entre outras atividades.

Para os moradores, mais do que desenvolver conjuntamente processos de mudança nas formas e manejo do frango caipirão, o projeto representa um avanço quanto à democratização dos meios de produção, uma vez que pretende envolver a participação dos agricultores de base familiar da comunidade, contribuindo para o fortalecimento organizacional, garantindo a segurança alimentar com base em princípios e conceitos de agroecologia, mediante adequação do uso de tecnologia de baixo impacto ambiental e social e de retorno econômico coletivo.

Ansioso pela concretização do projeto, o presidente da ARQUIPA, Lael Soares Sales, fala das metas que se pretende alcançar com a construção do viveiro comunitário para a criação do caipirão. “Além de capacitar nossos agricultores na criação de galinha caipirão, o projeto também vai nos ajudar em relação a nossa alimentação, também vai ser vendido para as comunidades vizinhas, e também até a sede do nosso município e se pensando também com a merenda escolar futuramente. Com isso as famílias vão estar sendo beneficiadas e até o final do projeto a gente pretende que todas as famílias dessa comunidade tenham conhecimento de como se criar essa galinha e daí dar continuidade nesse processo desse projeto”, comenta.

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De forma semelhante às expectativas expostas por Lael, a professora Maria Benedita também acredita que o projeto irá beneficiar toda a comunidade, além de fortalecer a identidade quilombola. “Eu creio que esse projeto veio para melhorar, eu já tinha ouvido falar em vários projetos, mas nunca sentaram com a gente pra conversar como seria dado o andamento do projeto, ter primeiro uma formação pra poder fazer a criação, então eu acho que é uma boa oportunidade para as famílias da comunidade. Eu creio que todas as famílias estão se sentindo lisonjeadas pelo apoio que o Fundo [Fundo Dema/FundoAmazônia] tá dando pelo fato de vir um Fundo Nacional pra ajudar as famílias aqui, dar oportunidade, porque eu creio que muitos querem fazer, tem a vontade de fazer mas não sabem como começar, então isso veio a calhar no momento que a gente esperava pra dar andamento na produtividade”, diz ela.

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É assim, coletivamente, que os quilombolas pretendem expandir sua atividade de produção, como já vinha fazendo com o extrativismo vegetal e criação de pequenos animais. Porém, a criação destes incita grande expectativa de melhorar as condições de vida das famílias por meio do manejo florestal e respeito ao equilíbrio ecológico do agroecossistema.

No tempo em que a Organização das Nações Unidas (ONU) declara 2014 como sendo o Ano Internacional da Agricultura Familiar, o projeto se faz importante porque além de atender aproximadamente 90 famílias, o excedente da produção poderá se expandir para a merenda escolar e também para o abastecimento de comunidades próximas.

De acordo com os dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), publicados em dezembro de 2013, no ano anterior a compra de produtos da agricultura familiar destinados à merenda escolar foi adquirida por 80% dos municípios brasileiros, movimentando pelo menos 360 milhões de Reais.

Apesar disso, o cenário atual aponta a necessidade de ampliar efetivamente o acesso de mais famílias camponesas, quilombolas, pescadoras artesanais nos programas de aquisição de alimentos do Governo Federal para garantir melhorias nos níveis de segurança alimentar na Amazônia.

Sentimento comunitário

Da janela de sua casa de madeira, uma casinha branca com os detalhes de portas e janelas azuladas, Eugênio Soares observa atentamente a movimentação no barracão da comunidade, que fica bem em frente a sua morada, onde as pessoas se reuniam para discutir o projeto. Levando uma vida simples, o agricultor que frequentou a escola formal até a quarta série, sonha com um futuro melhor para seus netos.

“Devido nós não ter o conhecimento, hoje em dia nós já caminhamos um pouquinho através de umas entidades que tá nos acompanhando. Então a gente agradece as entidades que vêm e faz parcerias com a gente porque são elas que estão nos levando pra esse caminho de esperança. A expectativa com o projeto é pra ver até mesmo se melhora a nossa alimentação, porque nós sabemos que hoje em dia pra nós comer um frango de qualidade, nós precisamos de uma alimentação melhor pra nós e pros nossos filhos. A nossa prioridade mesmo é nós aqui dentro, os moradores e algumas comunidades aqui próximas”, afirmou o seu Eugênio.

Em suas trajetórias de vida semelhantes, os moradores de Porto Alegre fomentam uma identidade coletiva. Para eles, é importante lutar pela garantia de direitos e reconhecimento de uma cidadania desvinculada do direito centralizado no indivíduo. É, portanto, na junção de forças que redefinem lógicas de pertença grupal e se firmam enquanto agentes sociais e políticos, tomando consciência de suas ações frente à realidade social em que estão inseridos.

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“Sou Assis do Nascimento Gonçalves, nascido e criado aqui, sou tataraneto de quilombo, meu avô e bisavô foram um dos fundadores da comunidade aqui de Porto Alegre, e eu como um tataraneto convivo com o meu pai e minha mãe aqui. Nunca saímos daqui pra morar em outro lugar. Sempre vamos na cidade, na capital passear com meus irmãos, buscar alguma informação, mas moro aqui onde fui criado. Sou pai de duas filhas, não convivo com a mãe, mas dou o sustentamento para as crianças. Tenho 42 anos e pra mim ser quilombola é ser proprietário da terra onde meu bisavô, meu avô, que trabalharam como escravos, mas eu já não quero isso pra mim e nem para minhas filhas, mas quero permanecer na nossa área e espero que o governo segure essa titulação que nós já temos, pelo menos os quilombos fiquem permanecendo na sua área, assim como os indígenas”, conta cheio de orgulho de sua história, o agricultor.

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É comum ouvir nas falas dos moradores a necessária saída dos membros da comunidade para estudar ou para desempenhar alguma atividade na capital, mas o desejo de voltar ao aconchego, ao lugar de pertencimento é fortemente externado, tanto que assim como Assis, que vai a Cametá somente por um período curto, Maria Erundina Soares Gonçalves, conta que estudou fora e depois de formada voltou à comunidade para continuar ajudando seus familiares na atividade agrícola.

“Eu já trabalhei muito na roça, sempre eu ia estudar, mas voltava pra a roça, mesmo depois de trabalhar na escola que eu trabalho hoje, mas sempre tô ajudando na comunidade, no que é preciso, faço o que está ao meu alcance”, diz a senhora de 50 anos que faz questão de preservar a sua história por meio do samba de cacete, uma espécie de batucada originária da cultura africana.

Fundo Dema e os quilombolas

Sujeitados a uma vida de grande exploração, iniciada no século XVII com o processo de colonização, durante muitos anos homens e mulheres negras configuraram um cenário de escravidão na Amazônia. A relutância a essa condição muitas vezes se firmava na fuga para os mais longínquos lugares, nas mais diversas direções.

De acordo com a historiadora Benedita Celeste Pinto, no artigo Escravidão, fuga e a memória de quilombos na região do Tocantins, “no itinerário da fuga de negros escravos [na Amazônia], a região do baixo Tocantins despertava uma certa sedução, pois lá, principalmente na localidade de Cametá, ventilavam-se algumas movimentações contra o regime de então, que se arrastaram após a adesão do Pará à Independência, mesclando com os ideais do movimento cabano”

Dessa forma os quilombos foram se formando, frutos de fuga de negros escravos. Na luta pela sobrevivência, sobressaltados com a possibilidade de serem reescravizados, deixavam para trás os laços de amizade e percorriam mata adentro para se refugiar, daí nasciam os miniquilombos como o de Porto Alegre.

Tendo os seus direitos territoriais reconhecidos pela Constituição de 1988, os quilombolas lutam pela garantia de seus direitos como cidadãos e por conta da ausência de políticas de Estado que consigam assegurar-lhes concretamente uma vida digna, necessitam criar alternativas de sobrevivência, tal qual fazem com planejamento de projetos, a exemplo do projeto de criação de galinha.

O projeto Viva Alegre Caipirão, que deverá iniciar em breve, é resultado da articulação de uma das entidades que integram a Coordenação das Associações das Comunidades Quilombolas, intitulada MALUNGU, criada para tratar das especificidades dos quilombolas da Amazônia. Parceira da FASE Amazônia e do Fundo Dema, com o apoio da Fundação Ford, desde 2008 a MALUNGU articulou e coordenou vários projetos de fortalecimento das associações comunitárias quilombolas no Pará e preservação do meio ambiente. Atualmente integra o Comitê Gestor do Fundo de Apoio às Comunidades Quilombolas do Fundo Dema, e na parceria FASE/Fundo Dema e o Fundo Amazônia está previsto o apoio a 39 projetos que visam o fomento de transformações estruturais positivas e fortalecimento histórico e social da população quilombola do Norte do país.

Fonte: Fundo Dema

Joel Zito faz pré-estreia do filme Raça em Belém.

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Os “rolezinhos” e “shoppings lotadões” — que é como eles chamam os eventos nos estacionamentos e áreas comuns — são uma forma de ação afirmativa.

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