
A 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, marcada para 25 de novembro em Brasília, tem raízes claras: o Pará e o movimento negro amazônico. Foi ali que militantes como Nilma Bentes, do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), vinham acumulando décadas de organização política.
A proposta da marcha foi apresentada em 2011, durante o Afro-21, em Salvador — um encontro internacional que marcou o Ano dos Afrodescendentes. A formulação nasceu da experiência coletiva das militantes paraenses, que levaram ao debate nacional uma questão estratégica: era hora de reunir mulheres negras de todo o Brasil em um ato de projeção nacional.
“A adesão foi emocionante e ‘mágica’. Às vezes sinto que fui escolhida pelas antepassadas para ajudar a abrir esse caminho”, diz Nilma, destacando que o processo não se explicava por uma pessoa, mas por um acúmulo histórico de mulheres negras organizadas há décadas no Pará e em outros estados.
“Celebramos as conquistas que acontecerem nos 10 anos da primeira marcha nacional e seguimos para essa segunda com a certeza da contribuição de mulheres negras para a democracia brasileira. Apesar de toda a opressão e da invisibilidade que, mesmo setores da esquerda insistem em manifestar, mulheres negras têm um projeto político pra o Brasil, baseado em políticas públicas universais para toda a sociedade”, diz Christiane Gomes, coordenadora de Projetos na Fundação Rosa Luxemburgo no Brasil e Paraguai.
A partir do Afro-21, a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) incorporou a proposta e iniciou o processo de articulação nacional.
Do Pará para o país: a reorganização do movimento
Para Maria Malcher, do Cedenpa, a força da proposta é inseparável das lutas amazônicas:
“Quando Nilma apresentou a ideia, muitos grupos perceberam que ali havia algo que nós já queríamos há muito tempo. A marcha deu visibilidade ao protagonismo das mulheres negras e reorganizou os atos nacionais.”
Segundo ela, a chegada da proposta ao circuito nacional mudou o próprio 8 de Março no Brasil:
“Nós deixamos de ser uma ‘ala’. Passamos ao centro da formulação política, trazendo nossas referências, nossas demandas e nossa agenda. Isso transformou o movimento de mulheres no país.”
A partir de 2013, com o lançamento do Comitê Impulsionador Nacional na 3ª CONAPIR, a organização se expandiu por 26 estados. A marcha de 2015, em Brasília, reuniu cerca de 50 mil mulheres negras.
O que a marcha reorganizou: alianças, formação e horizonte comum
Juliana Gonçalves, da Marcha de Mulheres Negras de São Paulo (MMNSP), descreve 2015 como um divisor de águas:
“A marcha criou um espaço real de diálogo entre mulheres negras com ideologias, territórios e trajetórias diferentes. Ela permitiu construir unidade sem apagar divergências.”
Para ela, essa reorganização foi estrutural:
“Depois da marcha, inúmeros coletivos surgiram ou ganharam novo fôlego. A capilaridade territorial se ampliou como nunca. E isso só foi possível porque havia uma base anterior — principalmente a construída por organizações amazônicas como o Cedenpa.”
O bem viver enegrecido: o conceito que ganhou centralidade
A noção de bem viver, introduzida por Nilma no debate e incorporada pela marcha, virou eixo organizador. Segundo a ativista, trata-se de um horizonte político que envolve:
- “não mercantilização da natureza”;
- “combate ao consumismo”;
- “valores ancestrais como guia ético”;
- “economia subordinada ao equilíbrio ecológico”.
Juliana explica como o bem viver ganhou novas camadas quando apropriado por mulheres negras:
“Nós enegrecemos o bem viver. Transformamos o conceito incorporando cuidado, autocuidado, ancestralidade e solidariedade cotidiana. Isso moldou toda a construção política da marcha.”
Legados de 2015: expansão, representatividade e novas agendas
O impacto da primeira marcha ainda é visível, afirma Juliana:
“O aumento da presença de mulheres negras na política institucional depois de 2015 não é coincidência. A marcha reorganizou o debate sobre democracia representativa.”
Maria Malcher destaca outro ponto:
“O maior legado é a multiplicidade de grupos de mulheres negras que surgiram. Hoje existem coletivos de comunicação, economia, justiça reprodutiva, incidência política. Antes não era assim.”
Reparação como centro da marcha de 2025
A edição de 2025 tem como eixo o debate sobre reparação histórica. Para Nilma, não há forma plena de reparar séculos de escravização, mas é possível reduzir desigualdades estruturadas:
“Reparação significa fundo financeiro para mulheres negras, cotas nos três poderes, mudanças previdenciárias para trabalhadoras domésticas, políticas habitacionais e combate ao encarceramento em massa.”
Do nacional ao internacional: a marcha se globaliza
Um dos dados mais relevantes da atual edição é a internacionalização do processo.
Segundo Juliana:
“Há mais de 30 países organizando comitês. A marcha deixou de ser nacional e se tornou global.”
Maria Malcher reforça o caráter pedagógico:
“A marcha nos ensinou que somos criativas na metodologia e capazes de mobilizar de forma autônoma. Isso explica a expansão para fora do Brasil.”
Desafios e continuidade
Nilma diz que a conjuntura atual impõe novos desafios, mas não altera o sentido do processo:
“A marcha não parou em 2015. Muitas de nós seguimos marchando todos os dias. A equidade pode parecer utópica, mas é nossa responsabilidade seguir lutando.”
Por Katarine Flor – jornalista e coordenadora de Comunicação na Fundação Rosa Luxemburgo