O título de Doutora Honoris Causa concedido à intelectual inscreve o movimento negro amazônico na memória acadêmica
A decisão da Universidade Federal do Pará (UFPA) de conceder o título de Doutora Honoris Causa à ativista e intelectual Nilma Bentes representa um marco para a universidade e para o movimento negro na Amazônia. A honraria reconhece mais de quatro décadas de atuação na defesa dos direitos da população negra e na construção de políticas públicas de igualdade racial no Pará.
Fundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), criado em 1980, Nilma Bentes integra a geração que estruturou o movimento negro organizado no estado em plena transição da ditadura militar para a redemocratização. O Cedenpa nasceu com o objetivo de enfrentar o racismo institucional, promover formação política e incidir na formulação de políticas públicas — atuação que marcou a trajetória da ativista desde então.
Formação do movimento negro no Pará
Nos anos finais da década de 1970, o país vivia a reorganização dos movimentos sociais. Em 1978, o surgimento do Movimento Negro Unificado impulsionou articulações em diversos estados. No Pará, Nilma Bentes esteve entre as lideranças que compreenderam a necessidade de estruturar uma organização permanente de defesa da população negra, com atuação voltada para educação, cultura, denúncia de discriminação racial e incidência política.
O Cedenpa consolidou-se como uma das principais entidades negras da região Norte, articulando debates públicos sobre racismo estrutural, exclusão social e direitos humanos em um contexto regional marcado por desigualdades históricas e invisibilização da população negra amazônica.
A origem da proposta
A proposta de concessão do título surgiu no âmbito da Clínica de Atenção à Violência (CAV/ UFPA), vinculada à Faculdade de Direito, a partir de reflexões desenvolvidas no projeto Redes Antirracistas, em parceria com o Ministério da Igualdade Racial.
Em entrevista à reportagem, Luanna Tomaz, professora e coordenadora da CAV/UFPA, explicou que a iniciativa partiu de um diagnóstico interno sobre o perfil histórico das homenagens concedidas pela universidade.
“A clínica participou do projeto Redes Antirracistas, que estimulava o desenvolvimento de práticas antirracistas dentro da universidade. Junto com os alunos, começamos a discutir o racismo acadêmico. Quando fomos verificar os títulos honoríficos concedidos anteriormente, percebemos que todos haviam sido destinados a homens brancos — muitos ligados à Igreja e alguns vinculados à ditadura. Então resolvemos propor o nome de uma mulher negra.”
Para a docente, o reconhecimento tem dimensão pedagógica e política.
“É importante para mostrar a relevância das mulheres negras na universidade. Também é reconhecer que o saber não é produzido apenas dentro da academia formal. É um saber que nasce nas ruas, nos movimentos sociais, na formulação de políticas públicas.”
Luanna destaca ainda que a trajetória de Nilma extrapola o campo local.
“A atuação da Nilma não foi apenas municipal, foi estadual e nacional. Ela impactou a formulação de políticas públicas no Pará e no Brasil. Nós estamos em um estado com forte presença negra, e muitas políticas estruturadas aqui dialogam com essa luta histórica.”
Segundo ela, a cerimônia busca marcar simbolicamente essa mudança de perspectiva institucional.
“Queremos que seja uma cerimônia histórica. A universidade é um espaço de pessoas negras, é um espaço de produção de saber comprometido com a luta política. Esse reconhecimento também afirma esse compromisso.”
Principais frentes de atuação
Ao longo de sua trajetória, Nilma Bentes esteve diretamente envolvida em:
✔ Incidência por políticas de igualdade racial
Participou de articulações que contribuíram para a institucionalização de políticas de promoção da igualdade racial no Pará, dialogando com governos estaduais e municipais e integrando espaços de formulação e controle social.
✔ Defesa das ações afirmativas
Apoiou e articulou o debate sobre a implementação de políticas de cotas raciais no ensino superior, acompanhando o processo de democratização do acesso às universidades públicas, inclusive na UFPA.
✔ Formação de lideranças negras
Coordenou e participou de programas de formação política voltados para juventude negra, mulheres negras e lideranças comunitárias, fortalecendo redes locais e regionais.
✔ Idealização da Marcha das Mulheres Negras
Nilma Bentes é reconhecida como uma das idealizadoras da Marcha das Mulheres Negras 2015, realizada em Brasília, que reuniu dezenas de milhares de mulheres negras sob o lema “Contra o racismo, a violência e pelo bem viver”. A mobilização tornou-se um marco histórico na articulação nacional de mulheres negras.
✔ Atuação nacional
Integra articulações nacionais do movimento negro e participou de conferências e fóruns de promoção da igualdade racial, contribuindo para a formulação de políticas públicas em âmbito federal.
✔ Defesa dos direitos das mulheres negras
Destacou-se na articulação de pautas específicas relacionadas às mulheres negras, enfrentando as intersecções entre racismo e sexismo e defendendo políticas públicas voltadas à proteção e autonomia dessas mulheres.
Universidade e disputa por memória
Durante décadas, o espaço universitário brasileiro permaneceu distante das lideranças populares e dos movimentos sociais. A ampliação do acesso de estudantes negros ao ensino superior, especialmente após a Lei 12.711/2012, representou uma inflexão histórica — fruto da mobilização do movimento negro em todo o país.
Ao conceder o título honorífico a uma ativista, a UFPA reconhece que o conhecimento produzido na militância e na experiência social também constitui patrimônio intelectual.
Na Amazônia, onde a história do movimento negro frequentemente recebe menor visibilidade no cenário nacional, o gesto ganha peso simbólico adicional.
Reconhecimento individual, construção coletiva
Nilma Bentes construiu sua trajetória em articulação com organizações, redes e comunidades. O título de Doutora Honoris Causa projeta seu nome na história institucional da universidade, mas simboliza o reconhecimento de uma luta coletiva que atravessa gerações.
A decisão da UFPA não apenas celebra uma biografia. Ela inscreve oficialmente na memória acadêmica a contribuição do movimento negro amazônico para a democracia brasileira.
Mais do que uma cerimônia, o gesto reafirma que o enfrentamento ao racismo e a promoção da igualdade racial são parte constitutiva do projeto de universidade pública.
Fotos Nilma:
Fonte: Tramaré/Fundação Rosa Luxemburgo