Dilma sanciona lei que reserva a negros 20% das vagas em concursos

Reservas de vagas terão vigência pelos próximos dez anos


BRASÍLIA – Em cerimônia fechada à imprensa, a presidente Dilma Rousseff sancionou nesta segunda-feira, 9, projeto de lei que reserva a negros 20% das vagas oferecidas nos concursos públicos da administração pública federal. A lei entra em vigor a partir da data de sua publicação, o que deve ocorrer na edição desta terça do Diário Oficial da União.

As reservas de vagas terão vigência pelos próximos dez anos e valem para cargos da administração pública federal, autarquias, fundações e empresas públicas e sociedades de economia mista controladas pela União. As cotas não se aplicarão a concursos cujos editais já tenham sido publicados antes da entrada em vigor da nova legislação.

De autoria do Executivo, o projeto sancionado por Dilma também prevê que, em caso de “declaração falsa”, o candidato será eliminado do concurso e, se já tiver sido nomeado, ficará sujeito à anulação da sua admissão ao serviço público, após procedimento administrativo “em que lhe sejam assegurados o contraditório e a ampla defesa”.

Poderão concorrer às vagas reservadas a negros aqueles que se declararem pretos ou pardos no ato da inscrição no concurso público, conforme definição de cor e raça utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Vocês não tenham nenhum temor à possibilidade de que se crie algum tipo de instância que pejorativamente tem sido chamada de tribunal racial, porque nós vamos obviamente ter de produzir um documento que fale sobre a interpretação requerida para essa lei, porque é uma lei para ser aplicada por várias instituições, ministérios”, comentou a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiza Bairros. “Temos de ter a certeza de que a intenção do legislador deverá ser efetivamente preservada.”

De acordo com a ministra, o governo não teme a má aplicação da legislação. “Quero acreditar que o Congresso Nacional aprovou esse projeto porque a sociedade brasileira está madura para entender a sua dimensão e principalmente a sua intenção de superar desigualdades raciais”, disse a ministra.

“Nós temos em relação, por exemplo, às universidades, alguns casos no Brasil de denúncias de declaração falsa da identidade racial. O que temos agora é consultar os Ministérios Públicos, coletar estratégias que estão sendo utilizadas para que essa experiência seja aproveitada no governo federal.”

Segundo levantamento de 2012 da Secretaria-Geral da Presidência da República, cerca de 34% dos servidores da Presidência se declaram negros ou pardos, proporção inferior a de autodeclarados pretos e pratos (51,28%), conforme o último Censo do IBGE.

Oportunidade. Para a presidente Dilma Rousseff, a sanção da lei de cotas no serviço público federal é uma oportunidade para o Brasil mostrar ao mundo “o respeito e o orgulho que nós temos pela diversidade da nossa nação”. “Ela é uma celebração da diversidade racial de nosso País”, disse Dilma, que agradeceu o Congresso Nacional pela rapidez com que o projeto tramitou.

“O sistema que está sendo implantado por essa lei assegura que o mérito continue a ser condição necessária para o ingresso no serviço público federal. Os candidatos negros deverão ser aprovados segundo os critérios definidos em edital, alcançando a pontuação estabelecida e outros requisitos. Tal sistema altera apenas a ordem de classificação, privilegiando os candidatos negros”, afirmou Dilma.

Em novembro do ano passado, Dilma anunciou durante a abertura da 3ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial que encaminharia ao Congresso o projeto de lei de iniciativa do Executivo. Nesta segunda, a presidente aproveitou a curta cerimônia de sanção da lei para destacar que o combate ao racismo será uma das principais bandeiras levantadas na Copa do Mundo, que começa na próxima quinta-feira.

“Estamos empenhados em fazer da Copa das Copas um momento de celebração da paz, respeito de nações, que afirme que sem dúvidas, sem hesitações, um combate ao racismo e a todo o tipo de discriminação”, comentou a presidente, interrompida por aplausos.

Fonte: Estadão

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Dois países ocupam uma mesma e imensa porção da América do Sul. Um deles, o Brasil branco, é mais escolarizado, sofre menos com o desemprego, e sua população tem renda. O outro é o Brasil negro, em que apenas 4% dos habitantes concluíram o ensino superior, e a pobreza extrema afeta muito mais pessoas. Apesar de essas duas nações terem, aparentemente, as mesmas condições de cuidar de suas populações, o Brasil negro ainda sofre com as consequências de um fenômeno cruel que deixou essa parcela da sociedade em enorme desvantagem: a escravidão. Os quase 400 anos em que negros eram encarados como simples mercadorias, animais de trabalho sem direitos, cavaram um abismo entre os dois Brasis, que precisam agora encontrar o caminho da reconciliação para que todos, independentemente dos traços físicos ou da cor da pele, possam ser, simplesmente, brasileiros.

Não faltam dados que mostram como os afrodescendentes são colocados na rabeira do espectro social. Segundo dados do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), em 2003, 8,4% dos negros encontravam-se em condições de extrema pobreza, enquanto, entre os brancos, esse índice era de 3,2%. Embora mulheres e homens negros sejam 44,7% dos brasileiros, eles representam 68% dos 10% mais pobres no país. À medida que se avança em direção aos grupos mais abastados, ocorre um “branqueamento” da população, até que a presença negra seja reduzida a 13% dos 1% mais ricos.

Completo em: Correio Braziliense

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Assunto:(re)visitação do passado, separação histórica da família negra, no rastro de nossos antepassados, ser uma pessoa  afro-negra-brasileira em paz, cumprindo um dever racial, entre outros. Ano: 1993.

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